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No Dia do Índio, conheça os Pataxós que atuam na CPTM
19/04/2017

A ditadura militar foi marcada por diversos conflitos, dentre eles, a sangrenta disputa entre índios e fazendeiros. Na década de 70, no município de Pau Brasil, localizado no sul da Bahia, cerca de 54 mil hectares pertencentes aos pataxós foram tomados pelos fazendeiros. Os 700 índios que moravam no local tiveram que se abrigar em tribos vizinhas ou, até mesmo, ir para a cidade grande, “tentar” a vida em uma terra estranha.

Entre os pataxós despejados de suas terras, estava a família de José Pereira dos Santos (50) e de Jucelino Pereira dos Santos (53). Os irmãos, registrados só depois da expulsão com nomes não indígenas, saíram de sua terra natal sem entender muito bem o motivo, pois ainda eram crianças quando isso aconteceu.  “Pensava que era uma mudança para melhor, não entendia que eles estavam nos expulsando”, conta José.

Com destino ao Paraná, a família partiu para uma nova vida na terra dos homens brancos. Viveram no Estado por cerca de 2 anos, mas não se adequaram, por isso, se mudaram para São Paulo no ano de 1975. “Eu sempre ficava doente, não me adaptei bem ao Paraná. Por isso, nos mudamos para São Paulo”, relata Jucelino. A chegada à São Paulo também não foi fácil.

Os pais de Jucelino e José trabalhavam na aldeia, onde se dedicavam a caça e a pesca. Na cidade grande, não encontraram espaço para estas tarefas e para criar os 11 filhos da melhor maneira possível, tiveram que se adaptar à agricultura.

Os irmãos, hoje, ferroviários da CPTM, trabalham na área há mais de 30 anos e encontraram na ferrovia a oportunidade de mudar de vida. A história deles tornou-se um fato curioso na Companhia.  Para José, a atenção dada à origem deles não incomoda. “Os outros funcionários acham interessante e perguntam sobre a nossa infância, querem saber como era a vida na aldeia, já que vivíamos em ocas”, ressalta.

Jucelino realiza um trabalho específico e fundamental para a operação da CPTM: ele faz parte da equipe de manutenção da via permanente da Linha 7-Rubi. Já o José trabalha na Estação Vila Clarice, também na Linha 7-Rubi, atuando como bilheteiro ou auxiliando os usuários no embarque e desembarque.

No Brasil, existem mais de 12 mil pataxós, segundo o Siasi/Sesai 2014. Para os irmãos, integrantes da tribo Pataxó Caramuru, a cultura indígena também faz parte da história brasileira. “É importante lembrar dos povos indígenas. O índio tem um papel importante no desenvolvimento do Brasil, mas, infelizmente, muitos não dão o devido valor aos indígenas de nosso país”, diz Jucelino.

A vida em São Paulo não afastou os irmãos de suas origens. “Gostamos do mato e sentimos falta da aldeia”, afirma José. Para Jucelino, as raízes indígenas nunca serão esquecidas, “Eu me apresento em escolas, conto história da nossa tribo, mostro algumas armadilhas de caça e canto no dialeto pataxó. As crianças amam a parte da música”.

O passado na aldeia, mesmo como os conflitos, ainda traz boas recordações para os irmãos. “Lembro da minha mãe pescando peixes com a mão, do meu pai saindo para caçar à noite e nos trazendo carne e frutos do mato, além de vegetais que ele mesmo plantava. Eles sempre cuidavam da gente”, relembra José.